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texto na íntegra da entrevista concedida à Sheyla Miranda para compor a matéria “Corpo em Transe” sobre a exposição coletiva “Corpos Insurgentes” (SESC Vila Mariana, 2014)
revista impressa Harper’s Bazaar Art/setembro 2014

Sheyla Miranda: você irá expor na mostra a série fotográfica "Cabelódromo", certo? É uma série que já existia ou você preparou exclusivamente para a mostra? O que você quer discutir essencialmente com essa obra?

Grasiele Sousa: acredito que uma questão latente no trabalho é encorajar outras descobertas sobre o que podemos nomear, vivenciar, discutir, apresentar como feminino. A série fotográfica que irei mostrar nesta coletiva é inédita e se baseia no registro do meu percurso, até aqui de sete anos, com o projeto de performance Cabelódromo. As imagens mostram ações em que manipulo o cabelo em torno da face para criar o que chamo de esculturas capilares. São “penteados e tratamentos capilares” pouco convencionais cuja tentativa é afirmar a possibilidade de uma dessintonia entre padrões de beleza vigentes e o que se assimila por feminino.

S.M.: por que o cabelo é um tema central para você? Imagino que tenha muito a ver com a representação da figura feminina, seus estereótipos e padrões. Sempre pensei que o cabelo é um dos elementos mais fortes da figura feminina…

G.S.: costumo dizer que, desde pequena, sinto uma mistura de encantamento e estranheza por esta parte do corpo. Os modelos de cabelo podem contar muito sobre o modo como sociedades de diferentes épocas, contextos sociais e políticos, crenças e atividades religiosas aconteceram. Ter cabelo comprido durante os anos 60, mantê-lo imaculado como voto de fé, tosquia-lo para o serviço militar, esticar os fios, mudar sua cor, enfim, cada proposta de como apresentá-lo compõe, junto com a roupa, gestos e atitudes, uma forma de se manifestar de modo pessoal ou coletivo no mundo. Vejo o cabelo como uma forma de subjetividade.
certamente, cabelo e imagem do feminino no contemporâneo tem muito que ver já que esta parte do corpo não escapa dos apelos publicitários que procuram anular nossas singularidades. Quando manipulo minhas madeixas performaticamente estou tentando resistir a essa uniformização do feminino. O cabelo me encanta também pela sua indisciplina frente às tentativas de domestica-lo com um penteado, um alisamento, uma tintura ou um corte, eu explico: ele sempre cresce, se renova, resiste e isso me instiga.

S.M.: qual a importância de uma exposição como essa, principalmente do ponto de vista de múltiplos olhares para a representação da mulher, de seu corpo e seus direitos?
G.S.: Primeiramente, porque se trata de uma exposição que dá visibilidade ao trabalho de artistas mulheres e isso, se pensarmos em uma historiografia da arte ocidental, ainda carece de mais espaço, de maior reconhecimento. Tenho muito prazer em estar nesta coletiva por esse motivo, e, também, porque nela se juntam trabalhos oriundos de diferentes trajetórias artísticas que desafiarão o público visitante a conviver com múltiplas expressões corporais do feminino. Como mulheres, podemos ser percebidas a partir de uma natureza comum - nossa anatomia é prova disso - entretanto, como artistas temos a nosso favor a possibilidade de reinventar o jeito de manifestar nosso corpo e acho que esta exposição irá mostrar isso. Por último, e não menos importante, é uma honra para mim poder dividir esta exibição com uma das artistas que é referência para meu trabalho com performance e que foi uma mulher de grandes sacadas, a poderosa e carioca Márcia X.