grasisousa@gmail.com

De: Grasiele Sousa
Para: carolina_gangnelli@hotmail.com
10 de maio de 2018 20:38

oi,
te respondo na sequência, transcrevi para cá o q vc me perguntou por chat.

"Então Grasi, super entendo isso de não ter o registro, tem trabalhos que fico tão na ânsia de fazer que me despreocupo em pedir pra alguém registrar de forma oficial acontece =[ "
no meu entender, o registro da ação existe, só que por intermédio de "pistas", fragmentos sob a forma de diversos suportes que, em certa medida, se completam com o corpo do performer em ação. Um deles é o vídeo, que ainda n tenho comigo, mas fora esse tem fotografia, meu caderno de artista, a serpentina de carnaval, a memória do corpo, enfim, vc me dá a oportunidade de também lhe perguntar pq o vídeo teria um papel "central" enquanto documento de uma ação ao vivo, se ela não se recupera enquanto tal, se o vídeo constitui um ponto de vista, é uma testemunha dentre tantas outras que podem compor a audiência... pra gente pensar junto.

"eu queria saber então, como é essa performance da "Serpentina"."
tenho como referência as performances Serpentine Dance de Loie Fuller e o número com a serpente de Luz Del Fuego. Eu pesquisei as duas possibilidades de relação com a ideia de serpente: movimentos sinuosos, representações e insubordinações do feminino que essas duas artistas discutem com seus trabalhos.

"O porque do nome, se faz uma referencia às serpentes ou uma brincadeira com a serpentina do carnaval..."
um dos meus interesses na performance é com a reperformance de ações históricas com propósito de criar um comentário pessoal que redimensione passagens da história da arte ocidental na minha trajetória local, como, por exemplo, mulher, brasileira, periférica, artista independente, subjetividade do sul global. Neste trabalho eu propus um encontro entre duas artistas que ainda vivem numa faixa de invisibilidade em seus contextos. Essa semana mesmo, conversando com um colega estudante de audiovisual, comentei sobre esse trabalho de Loie e ele não sabia o que era. Tenho conhecimento de que Loie foi pioneira no uso da imagem projetada no corpo. Isso deveria interessar... Luz foi feminista, criou um partido político, foi sensível a questões ambientais, era muito avançada para sua época, seu corpo era político quando resistia aos "maus tratos" que sua família lhe impunha - ela foi internada algumas vezes, muito em função de sua rebeldia à moral vigente -, quando se lançou em uma deriva ou certo nomadismo para vir a ser artista, quando adotou duas serpentes para seus números de dança, quando sua militância pró naturismo colocava em evidência a intolerância e o conservadorismo das elites/do colonizador que sempre quis controlar nosso corpo.
a serpentina de carnaval é o elemento que cria uma espécie de elo entre essas duas artistas e eu. A serpentina nesta performance é o reptil serpente e o movimento serpenteado, ao mesmo tempo, evoca uma situação social em que o corpo é pura festa - e não deixa de ser político: o carnaval. Propus com meu corpo uma espécie de atualização da movimentação de Loie, de Luz, com a serpentina e a folia.

"e se você se lembra de como ficou sabendo da existência da Luz del Fuego"
foi a partir de um levantamento que fiz sobre artistas mulheres que viviam sobre certa faixa de invisibilidade que tinham algum tipo de ligação com a cultura popular. Isso foi por volta do ano de 2011.

coloquei no anexo, duas imagens pra vc ver...
acho que isso pode ser um começo de conversa, pra mim interessa pq suas perguntas me dão a oportunidade de escrever sobre este trabalho a partir de uma interlocução. Se te anima, se contribui com tua pesquisa, podemos manter por algum tempo - até q o assunto esgote - esta conversa.

bj e obrigada