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texto-relato que escrevi para as pessoas que colaboram de forma remota com a performance "passado a limpo" ativada no Goethe/BA em agosto de 2018

caríssim_
agradeço imensamente por colaborar com este inventário. Gostaria de dizer que receber seu relato durante a semana que antecedeu a performance foi de extrema importância. Em certa medida, a ação já acontecia com a leitura do que chegava para mim - as sequências de nomes, idades, ocupações das mulheres. O que imaginei ser parte da proto-performance, era muito mais, pois já me impulsionava ao acontecimento.

também entendi a importância do pedido que fiz a você, ele fazia parte de uma espécie de programa de chegança aqui na Bahia. Com seu depoimento ativei a ação desde minha rede de São Paulo: pessoas de meu convívio, afinidade artística, parceir_s de vida. Muito obrigada por me acompanhar nesta abertura de trabalho, neste novo lugar que habito, uma terra cujo Brasil colonial não terminou e que me faz viver diariamente tensões irredutíveis por ser mulher, artista, branca, cis, desempregada e dona de casa.

com esta performance criei um protocolo de escuta e registro para nossa relação com o trabalho. Parti da distinção: ocupações que assumimos/reivindicamos no espaço público (patriarcal, remunerado desde sua fundação) e funções que fomos/somos obrigadas a exercer no claustro da vida privada (sentenciadas como dom feminino). Com vocês, este esquema foi atravessado pelas questões de classe, racialidade, etnia,
orientação sexual, religião, idade etc. Nada melhor que uma narrativa complexa sobre nós mesmos.

era minha intenção fixar temporariamente no tempo e no espaço o que escrevi juntamente ao público participante, por isso, os diagramas foram redigidos durante as três primeiras horas da ação, e, depois, apagados quando passei o tecido a ferro na última 1 hora. eu usei um giz que desaparece da superfície escrita com o calor.

certamente, busco discutir os limites entre memória e esquecimento, provocando os presentes a se tornarem arquivos vivos destas histórias, como também, quem sabe, incitar algum desconforto com a banalidade do ato. Mal se escreve e logo se apaga.

se não há equivalência entre a narrativa da figura masculina e a nossa na cultura letrada, lutemos para reparar essa assimetria. Todavia, outras formas de garantir nosso legado também devem ser acionadas. Aquelas que passam pelo corpo, que são transmissões no encontro, liberados do repositório, vibrando saber do corpo e que nos darão resistência para continuar no ritual doce e árido da vida.

mais uma vez